quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Desespero de Viver


Há uma coisa louca acontecendo. Coisa que não dou conta de viver. É a necessidade do Desespero. Necessidade, pasme, exatamente de viver. Mas não viver assim, simplesmente por viver. Falo de Viver com V maiúsculo, com paixão e ferocidade: VIVER! Que é algo muito maior e muito mais louco do que se pode prever.
Não dou conta. Hora mais, hora menos, parece que vou morrer. Morrer com essa angustia que vem da vontade desse desespero. E o que é esse desespero senão a angustia de que algo me toque, me clame a vida?
Acontece assim: se a vida estivesse nos eixos e o mundo muito bem encaminhado; se tudo, absolutamente tudo, estivesse assim tão certo, que seria a vida? Creio que seria um nada. Ou, pior, um nada banalizado.
É essa sede de mudança, essa busca por nem sei quê (sei que algo maior, algo melhor), é esse desespero de asfaltar as estradas da vida, essa angustia de dar-se ao mundo, por inteiro; é não menos que isso que chamo de Desespero de Viver.
Mas para sentir a vida é preciso sentir o sofrer. Seria a dor a prova da vida? Não sei. E nem me cabe saber. No entanto, parece-me, quanto mais se morre, tão mais se vive. E é por isso – por essa necessidade de provar a vida com os lábios, sentir o gosto na língua, sentir-me toca-la, é por isso- que morro. Morro! De amor – a cada dia e sempre-, de tédio, de cansaço, de torpor, de tudo o que possível for. Morro! Alma, corpo e coração cremados.
E nessa caixinha, que sou eu, o guardado pó que resta de tudo que existiu no dia, se transforma em pássaro de fogo. Enquanto queima, nasce; outra vez e de novo, nasce! E sente a alegria da vida, prova o gosto doce de ter brilho no olhar. E se ri. Muito e extremamente se ri! Não só com os lábios, mas com o corpo todo. Ri-se com a essência. Está viva! Entende isso? Viva e ardendo!
Porém, morrer todo dia não é fácil. Dói. E não é pouco. Até começar a viver, se morre um mundo.
Quando alguém se povoa de pequenas mortes quase que instantâneas, duas coisas podem acontecer: ou se abandona a vida e se morre por inteiro. Ou se chega até o limite da vida e se descobre o amor de viver.

- Mas o limite é uma linha tênue demais.

4 Expressões:

  1. fome de caos!
    "morrer não dói"

    sempre gosto do que você escreve.
    usa palavras ricas de sentido, nada cai no óbvio.

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  2. Muito bom texto!

    Entendo bem esse sentimento, embora, já para mim, "viver" se escreve e se declama com letras minúsculas.

    Abraço!

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  3. "No entanto, parece-me, quanto mais se morre, tão mais se vive. E é por isso – por essa necessidade de provar a vida com os lábios, sentir o gosto na língua, sentir-me toca-la, é por isso- que morro. Morro!"
    Verdade!
    Que lindo seu texto Lu, descompromissado, verdadeiro (:

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  4. passou verdade,vida e morte de uma vez só,esse texto a mim. E vendo vc descrevendo tudo me faltou palavras,eu só precisei absorver. e foi muito bom ler isso,abraço luiza!

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