Há uma coisa louca acontecendo. Coisa que não dou conta de
viver. É a necessidade do Desespero. Necessidade, pasme, exatamente de viver.
Mas não viver assim, simplesmente por viver. Falo de Viver com V maiúsculo, com
paixão e ferocidade: VIVER! Que é algo muito maior e muito mais louco do que se
pode prever.
Não dou conta. Hora mais, hora
menos, parece que vou morrer. Morrer com essa angustia que vem da vontade desse
desespero. E o que é esse desespero senão a angustia de que algo me toque, me
clame a vida?
Acontece assim: se a vida
estivesse nos eixos e o mundo muito bem encaminhado; se tudo, absolutamente
tudo, estivesse assim tão certo, que seria a vida? Creio que seria um nada. Ou,
pior, um nada banalizado.
É essa sede de mudança, essa
busca por nem sei quê (sei que algo maior, algo melhor), é esse desespero de
asfaltar as estradas da vida, essa angustia de dar-se ao mundo, por inteiro; é
não menos que isso que chamo de Desespero de Viver.
Mas para sentir a vida é preciso
sentir o sofrer. Seria a dor a prova da vida? Não sei. E nem me cabe saber. No
entanto, parece-me, quanto mais se morre, tão mais se vive. E é por isso – por
essa necessidade de provar a vida com os lábios, sentir o gosto na língua,
sentir-me toca-la, é por isso- que morro. Morro! De amor – a cada dia e
sempre-, de tédio, de cansaço, de torpor, de tudo o que possível for. Morro!
Alma, corpo e coração cremados.
E nessa caixinha, que sou eu, o
guardado pó que resta de tudo que existiu no dia, se transforma em pássaro de
fogo. Enquanto queima, nasce; outra vez e de novo, nasce! E sente a alegria da
vida, prova o gosto doce de ter brilho no olhar. E se ri. Muito e extremamente
se ri! Não só com os lábios, mas com o corpo todo. Ri-se com a essência. Está
viva! Entende isso? Viva e ardendo!
Porém, morrer todo dia não é
fácil. Dói. E não é pouco. Até começar a viver, se morre um mundo.
Quando alguém se povoa de
pequenas mortes quase que instantâneas, duas coisas podem acontecer: ou se
abandona a vida e se morre por inteiro. Ou se chega até o limite da vida e se
descobre o amor de viver.
- Mas o limite é uma linha tênue
demais.
fome de caos!
ResponderExcluir"morrer não dói"
sempre gosto do que você escreve.
usa palavras ricas de sentido, nada cai no óbvio.
Muito bom texto!
ResponderExcluirEntendo bem esse sentimento, embora, já para mim, "viver" se escreve e se declama com letras minúsculas.
Abraço!
"No entanto, parece-me, quanto mais se morre, tão mais se vive. E é por isso – por essa necessidade de provar a vida com os lábios, sentir o gosto na língua, sentir-me toca-la, é por isso- que morro. Morro!"
ResponderExcluirVerdade!
Que lindo seu texto Lu, descompromissado, verdadeiro (:
passou verdade,vida e morte de uma vez só,esse texto a mim. E vendo vc descrevendo tudo me faltou palavras,eu só precisei absorver. e foi muito bom ler isso,abraço luiza!
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